“Piratas do Vale do Silício”, este é o nome do filme que conta a história da Apple e da Microsoft. Foi lançado em 1999, lembro de ver o filme – dublado obviamente – na TNT. Posso descrever o filme como “Sessão da Tarde com algo mais”.
Caso existisse uma nova versão do filme, a cena principal seria de Steve Jobs e os advogados da Apple Corps discutindo o uso do nome. Apple Corps não é a empresa dos computadores, mas a empresa que os “quatro rapazes de Liverpool”, criaram para gerir seus negócios. O nome foi inspirado pela peça de arte “Apple” feita por uma das namoradas de um dos rapazes, chamada Yoko Ono.
A Apple cuidava da vida fonográfica dos Beatles predominantemente, além de possuir uma loja no centro de Londres e ter lançado alguns produtos totalmente descenessários, ligados geralmente a tendências artísticas, algo que poderia ser descrito hoje como “moderninho”. Além de filmes, a Apple chegou até a patrocinar a idéia de um disco voador, obra de um amigo de George Harrison.
Com o passar dos anos, os discos não relacionados aos Beatles lançados pela Apple passaram a ser objetos de culto e seus outros produtos alcançaram grandes números em leilões, graças aos beattlemaníacos dispostos a fazer qualquer coisa. Mas majoritariamente, o negócio da Apple eram os selinhos em todos os discos dos Beatles, para quem gosta de vinil, aquele lado com a maçã verdinha de um lado e do outro mordida.
Voltando a Steve Jobs, o nome Apple tem duas origens, a primeira é uma homenagem a Issac Newton (o primeiro logo da Apple era um desenho de Isaac Newton embaixo de uma árvore). A segunda, e mais obscura versão, diz respeito a Alan Turing, um matemático que criou muita das bases do estudo da informática. Turing cometeu suicídio injetando veneno em uma maçã e comendo a mesma. No meio dos anos 80 quando a Apple passou a virar um nome sólido na indústria da informática, os advogados da outra Apple foram conversar com Jobs. Esta conversa seria o update necessário em Piratas do Vale do Silício… a lenda sobre esta conversa é que os advogados da Apple (dos Beatles) viraram para Jobs e seus advogados e falaram: “OK, nós damos autorização para você vender seus computadores com este nome, mas NUNCA se meta com música”.
Hoje os resultados das vendas de 2006 ficaram prontos. A Apple, ou melhor a iTunes (o nome utilizado pela Apple quando o assunto é música, para evitar problema com os Beatles) é a terceira maior vendedora de música nos EUA e líder absoluto quando o assunto é venda de música digital. Ao mesmo tempo em que fica claro o fato de que a venda de música on-line é o tão aguardado novo formato que vai substituir o CD, a iTunes parece pronta para dar mais um passo, os rumores de que Jay Z (não na figura de rapper, mas sim o alto executivo que a Universal acabou de não renovar o contrato) está para forjar uma aliança com Steve Jobs.
Desde a criação do iPod (possivelmente a ferramenta que tornou possível o mundo da música adotar o formato digital como o substituto do CD), a Apple vem crescendo substancialmente. O maior “drive” que guiou Steve Jobs para criar o iPod (que, vale a pena lembrar, não foi o primeiro mp3 da história), foi o fato de que os players existentes eram horríveis na melhor das palavras. Percebendo isso, Steve deu a ordem para a criação do iPod que foi lançado em 2001. Três anos depois, já detendo a maior parte das vendas dos players, foi quando Steve resolveu criar a iTunes Music Store, com o objetivo de tornar a experiência do iPod completa e simples. Nem em seu sonho mais insano a Apple poderia imaginar que aos poucos acertaria a mão em absolutamente tudo que as majors erraram.
O raciocínio é simples: a única razão das majors existirem e o fator que as tornou gravadoras REALMENTE multinacionais foi a sua motivação original, fornecer software para um hardware, no caso música para toca discos. A razão da Philips ter criado uma gravadora (que depois de trilhões de mudanças e aquisições viria a se tornar a Universal Music), foi para ter discos para tocar em seus aparelhos de som. A Sony apenas comprou a CBS, para ter conteúdo para forçar o seu formato (o falido DAT) no mercado. A única diferença – crucial e brutal – é que a Apple nunca precisou tirar milhões de dólares do seu bolso para ter os maiores nomes da música disponíveis para os consumidores do seu hardware, até a notícia de que iTunes e Jay-Z estariam envolvidos em uma nova empreitada, a Apple não colocou um tostão para ter repertório, pelo contrário, além de ter o hardware, hoje a venda de música faz parte de seus rendimentos!
Desde 2003 a Apple tem dominado sozinha o mundo da música digital, em ambos os campos(player e conteúdo). Apesar de um ou outro concorrente que pode assustar (como é o caso da Amazon), a Apple sabe que está liderando o jogo sozinha e se existe algum concorrente, ele não assusta em nenhum momento a empresa californiana… ou melhor não assustava.
Existe uma verdade na indústria fonográfica: o CD não será o formato dominante, mas ao contrário do erro cometido quando o compact disc apareceu e em teoria matou o vinil, não existe um substituto para o formato ainda, possivelmente estamos falando de arquivos digitais, mas não necessariamente da compressão que é utilizada atualmente (o formato MP3), e assim como o vinil, o CD não vai morrer, porque a música nunca foi relegada a apenas um único formato.
O grande desafio que a indústria fonográfica sofre hoje em dia não é a morte de um formato, mas sim como ganhar dinheiro com música. Similar revolução aconteceu no final dos anos 70 quando a fita K7 se tornou popular, gerando campanhas como “Home Taping Is Killing Music”. Da mesma maneira que a indústria conseguiu não apenas contornar os problemas com o K7, ela viu seus lucros irem para o céu nos anos 80 e 90. Qual seria a grande diferença entre o K7 e o MP3? De alguma maneira um K7 representava uma força física, em um sentido que cópias físicas eram necessárias e o ato de comprar música era realizado em algum momento, ou seja ainda existia um certo controle, exatamente o contrário dos arquivos digitais, que as vezes realizam um caminho tão curto quanto o de uma sala de masterização, meses antes do disco fisíco ser lançado, até um site que hospeda dos arquivos, que imediatamente estão disponíveis para o mundo todo realizar o download. Simples.
A pergunta é: a mesma Philips que colocou o K7 no mercado e nos anos 80 a mesma Sony que inventou o walkman, pensaram que isso mataria seus dois braços fonográficos (na época a Polygram e a Sony Music)? De maneira nenhuma, por um motivo: as pessoas precisavam comprar K7s com música pré-gravada de suas gravadoras. Por mais que fosse possível gravar um K7 com o disco do vizinho, as pessoas sempre compraram música oficialmente, isso nunca deixará de acontecer. Por isso as ações da Apple valem mais do que as ações da Universal, porque a Apple nunca deixará de vender música, porque sim, as pessoas ainda vão comprar música oficialmente, isso nunca deixará de existir. Pode ser que o mercado encolha, pode ser que as pessoas não paguem por algo que existe de graça, mas todos nós sabemos que existe uma grande diferença técnica entre um K7 gravado do vizinho e um K7 oficial, assim como existe uma diferença de um K7 para um vinil, assim como existe uma diferença entre um MP3 de 120 kbps para um “flacc”. As pessoas gastam dinheiro para ter o melhor equipamento possível, elas querem qualidade. Qual é a razão do iPod ficar cada vez maior? Os arquivos estão ficando maiores, as pessoas querem isso, a banda está ficando cada vez mais larga. Da mesma maneira que em 2001 baixar um MP3 era uma tarefa árdua, hoje as pessoas podem baixar um disco em 5 minutos, com uma qualidade melhor. Muitas pessoas não tem paciência de ficar renomeando arquivos e ficar procurando os mesmos na internet… sim estas pessoas que sustentam a indústria, estas pessoas que sempre compraram discos.
O grande erro foi não ter abraçado isso anteriormente, foi ter adotado uma postura quase infantil em relação à música digital. A indústria esperou demais e hoje em dia sua lentidão foi tão nociva, que eles estão prestes a perder a única coisa que importa: os artistas. Hoje em dia está mais do que provado de que um artista precisa de uma gravadora, mas ela não é a única maneira de vender sua música. O Radiohead provou isto com sua inovadora tentativa de criar um novo paradigma na indústria. A maior crítica não é a de ainda realizar a venda física de sua música, existem consumidores para isto, que não podem ser ignorados e mais uma vez o multiformato sempre fez parte da indústria musical (em um curto período, o CD, K7 e vinil viveram lado a lado). A crítica foi ter vendido músicas de baixa qualidade sem avisar seu compradores, um erro bobo, mas crucial para a empreitada. Neste exato momento, Trent Reznor, do Nine Inch Nails, refina a experiência do Radiohead com um artista que ele produziu chamado Saul Willians e prova que esta forma de distribuição é válida, é mais um formato.
Neste ponto a Apple deve sentir um pequeno friozinho na barriga. Artistas vendendo música diretamente para seus consumidores? Isto esta longe de arranhar a sua supremacia… obviamente você pode comprar mais barato o disco do Saul Willians diretamente de seu site, por 5 dólares contra os 10 ou 12 da loja da Apple, da mesma maneira que pegando seu carro e indo até os arredores da cidade, você pode comprar uma dúzia de maçãs pela metade do preço do Pão de Açúcar. Existem pessoas que fazem isso, mas não a maioria, não a mãe que tem 2 filhos ou o executivo que tem uma tonelada de coisas para fazer, eles compram música no iTunes Music Store. A única maneira de entender isso é se você já experimentou a loja, se nunca fez isso, pode recolher o discurso… assim como todas as invenções de Steve Jobs, a iTunes Music Store é simples e eficaz, como um iPod, como um iBook ou como qualquer produto da Apple, ela funciona maravilhosamente bem.
Por isso soa infantil a Universal tentar impor uma nova loja para vender seu catálogo (ou anunciar que não vai renovar seu contrato com a iTunes). Pode ser um sucesso, pode ter um preço atrativo… pode ter até variedade… até artistas que não existem no iTunes, mas qual gravadora terá peito de não vender música com o terceiro maior vendedor de música do mundo? Qual artista vai ignorar esta plataforma?
As gravadoras existiram e investiram dinheiro (muito, a verdade deve ser dita) para que artistas pudessem registrar seus discos em estúdios e tivessem os mesmos promovidos. Hoje em dia, o software padrão de qualquer estúdio, funciona em absolutamente qualquer computador, os custos de gravar um disco caem a cada minuto, os estúdios enfrentam hoje uma crise tão grande quanto a da indústria fonográfica… pelo amor de Deus, a própria EMI vendeu a Abbey Road a anos! Quase nenhuma gravadora possui mais estúdio próprio hoje em dia. Da mesma maneira que você grava um disco em casa, você divulga o disco usando o mesmo computador que você usou para gravar. Por mais que uma gravadora ainda possua o poder de estourar um artista, ao contrário do passado, eles não são os únicos com este poder, pelo contrário, em muitos casos as gravadoras perderam completamente o toque mágico de fazer certos artistas se sobressaírem, porque perderam o contato com o seu público, porque o público mudou, porque o público nem discos compra mais!
Um artista com o Radiohead pode se dar ao luxo de falar “até mais, EMI” depois de 14 anos de investimento da mesma. Não podemos usar esta banda como parâmetro para nenhum novo modelo de negócio. Mas alguém se lembra do Artic Monkeys, como eles surgiram? Será que hoje em dia eles poderiam ter simplesmente vendido suas músicas on-line, sem necessidade de uma gravadora? Quem sabe no Reino Unido, seu país de origem. Mas sinceramente, existe algo que gravadoras multinacionais conseguem fazer e que nenhuma outra tem o poder: estourar um artista mundialmente, por isso todos sabemos quem é Shakira, mas em comparação poucos conhecem o trabalho do Battles.
O grande ponto é que as gravadoras multinacionais nunca vão deixar de existir. Elas vão encolher, vão mudar e precisam fazer ambas coisas, mas nunca vão deixar de existir. Da mesma maneira que a supremacia da Apple, na nova ordem mundial da indústria fonográfica, agora pode atingir novos parâmetros se a mesma resolver entrar no ramo do conteúdo. Não é possível nem imaginar o que pode acontecer. O futuro é multiformato como sempre foi, o futuro ainda significa pessoas pagando por música como sempre existiu. A única diferença é que, hoje em dia, faz muito sentido imaginarmos Steve Jobs fazendo um cheque e comprando a Apple dos Beatles e não mais o contrário.