O Buraco

Enquanto as vendas de CDs despencam a uma “velocidade” de 15% ao ano e no ano passado assistimos um aumento de 45% nas vendas digitais, ainda existe – claramente – um buraco entre ambos os números em que as contas das indústria fonográficas não fecham.

Isso já era de se esperar. Vivemos uma época de mudanças radicais em uma indústria que viveu quase 50 anos sem muitos problemas(uma crise do petróleo aqui, quem sabe a única coisa que vem a cabeça), parece enfrentar uma calamidade de proporções catastróficas.

Na mudança do vinil para o CD a industria fonográfica apenas saiu ganhando, as pessoas além de aceitarem o grande mito de que o CD tinha melhor qualidade do que o vinil(tente conversar com alguém que realmente entende da parte técnica de audio e converse sobre os primeiros relançamentos em CD… ou melhor, leia uma entrevista com Neil Young sobre o que ele acha dos seus discos quando sairam em CD), sairam correndo para o novo formato(que convenhamos, era muito mais prático do que o vinil). Ou seja, na virada dos 80 para os 90, se a indústria começava a dar sinais de enfraquecimento graças aos contratos milionários comissionadores pelas grandes gravadores(não esqueça que os anos 80 foram o ano dos contratos), a rápida ilusão criada pela venda de CDs, ajudou em muito a dar uma sobrevida a mesma.

Na segunda metade dos anos 90, começamos a assistir a queda de vendas dos CDs, por vários motivos, mas ainda nada que fosse alarmante. As majors ainda tinham muitas cartadas em suas mangas, graças ao aprimoramento de suas ferramentas de divulgação, os números nunca foram tão grandes para as mesmas.

De 2001 em diante foi quando as coisas começaram a ficar estranhas. Com a internet, as pessoas passaram a ter acesso gratuíto ao mesmíssimo album que estava nas lojas. Se por um lado, alguns viram a internet virar a maior ferramenta de promoção já criada, as grandes passaram a sentir na pela a diferença de lançar um single e simplesmente não alcançar o mesmo impacto de vendas, afinal, as pessoas podiam baixar o mesmo single gratuitamente na rede, em tempos de banda larga ainda engatinhando, os 10 minutos para baixar uma música eram completamente aceitáveis para uma música. Em pouco tempo, os mesmos 10 minutos eram o necessário para um album completo e neste exato momento em que a banda ficou mais larga a indústria percebeu que uma Guerra estava perdida.

Em 2004 foi anunciada uma pesquisa(, em que era comprovado que os downloads não tinham efeito direto na venda de discos físicos. Nesta época a venda de downloads começava a ganhar força, mas ainda era um formato completamente negligenciado pelas grandes gravadoras que entraram logo em paranóias de DRM e tornaram o que deveria ser a coisa mais simples do universo, na mais complicada. Tirando o universo Apple/Itunes, a experiência de comprar faixas era uma verdadeira Guerra… sites ensinando como transformar um “arquivo protegido” em compatível com os players que não aceitam DRM… ou seja, uma confusão(que diga-se de passagem ainda persiste).

Possivelmente o passo errado da indústria foi exatamente este de ignorar uma novidade tecnológica. Enquanto as majors gastavam rios de dinheiro em promoção e verba artística(que é necessário dizer não vai em toda sua totalidade para o artísta), nenhum centavo(ok, sendo mais realista, poucos centavos) em tecnologia. Enquanto a música na internet ainda dava passos largos, as majors ainda não conseguiam entender nem como a divulgação na internet era feita. Foram pegos com calça curta em absolutamente todas as novas tendencies(myspace/facebook/mp3blog/podcast). E como consequência, ao embarcar nas nas novidades, pagaram caro ao aliar-se as mesmas.

Isto fica claro ao analisar o que tem acontecido na indústria fonográfica. Em teoria este buraco nos formatos, não deveria existir. Caso desde o começo o novo formato(digital) tivesse sido abraçado da mesma maneira que o CD foi abraçado. Nunca consegui achar um artigo em que as majors reclamavam do CD, mas é só fazer uma pequena pesquisa para achar “internet matou a música”. A internet não matou a música, pelo contrário, parece ser claro que hoje em dia, mais pessoas escutam música e mesmo que seja um assunto completamente diferente, que não pode ser confundido com a internet(mas tem sua ligação), uma pequena andada na rua é suficiente para ficar claro de que mais e mais pessoas andam com seus players portáteis.

O grande dilema deste buraco é a maneira que ele será tampado. De onde vem este dinheiro? Se milhões de pessoas tem seu mp3 player a tiracolo, em teoria, as empresas podem(como já fazem) colocar suas marcas nos ouvidos destas pessoas. Uma parte destas pessoas estão dispostas a pagar pela música? OBVIAMENTE QUE SIM! As vendas digitais aumentam a cada ano de maneira vertiginosa. Ou seja, a resposta está em diminuir custos e ficar mais ágil, ambas resoluções que parecem ser absolutamente inviáveis para as majors, que são grandes elefantes, que uma vez em movimento(não esqueça de que vivemos 50 anos de prosperidade), vão demorar alguns anos para mudar sua atitude.

Por isso pessoas como Guy Hands, o novo manda chuva da EMI estão sendo críticadas pelo óbvio. Hands veio do mundo das finanças, para ele entender que a EMI gasta 1 milhão de dólares em bebidas, mulheres e presentes para fazer a engrenagem funcionar, soa insano. Para ele entrar em uma discussão com o Radiohead em que a banda pede para ter suas masters de volta soa insano, principalmente nos dias de hoje, em que catálogo é tudo(não vou entrar na questão de mérito contratual, afinal a banda assinou o contrato sabendo muito bem o que estava fazendo). Por isso que Robbin Willians fica nervoso, porque ele sabe que os seus dias de glória acabaram. Por isso o Coldplay fica ressabiado, o mundo do seu último disco é muito diferente do que acontece hoje. A 10 anos, um disco de sucesso era 2/3 maior do que é hoje, sucesso na indústria da música não necessariamente se converte em vendas de discos.

E o pior é que a uns bons anos, a indústria da música ao vivo virou a grande desculpa para as perdas na indústria fonográfica. Isso justifica os INSANOS contratos de 360 graus que não servem para absolutamente nada a não ser justificar o tamanho dos elefantes. Quando a Warner Brothers terá qualquer tipo de conhecimento para gerir a carreira de seus artistas, quando nem o seu próprio core business eles conseguem tocar? Mais uma vez, é apenas uma grande desculpa para continuar com as operações do tamanho que estão, dar uma sobrevida de mais alguns anos para os presidentes destas empresas, que logo logo não terão para aonde atirar.

Sim, existe dinheiro nas apresentações ao vivo. É óbvio que as pessoas tem mais disposição de gastar dinheiro com um show do que com a compra de um disco, pois o disco hoje em dia não precisa nem ser mais comprado, ele está de graça na rede. Contudo, mais uma vez o público parece ser negligenciado nesta “negociata”. É só dar uma olhada em qualquer materia sobre as reuniões de grandes artistas que movimentam a maior parted a indústria dam úsica ao vivo. As pessoas estão simplesmente ficando de saco cheio de grandes shows em que a experiência do entretenimento é tão limitada quanto assistir um DVD em casa. Se por um tempo isso colou, hoje em dia, praticamente todas as bandas já voltaram mais do que uma vez… quem sabe seja esta a razão de toda a comoção em torno do Led Zeppelin? Tirando eles, quem mais falta voltar? Smiths? Stone Roses? As reuniões que foram o grande hit do circuito ao vivo, acabaram de selar a morte do mesmo. Porque em anos, pouco foi investido em casa de pequeno-médio porte, de onde as novas faces deveriam surgir… ou seja, por algum tempo mais uma crise será instaurada.

Dito tudo isso, fica claro de que a coisa está feia? Mas para quem? Para qualquer pessoa que trabalha com música vivemos o pior e o melhor momento da história. O melhor porque hoje em dia a internet permite o fim da barreira entre artista e público e carreiras são construidas da maneira mais organica possível. Contudo, este modelo ainda não está em pleno vapor, porque o dinheiro nesta empreitada está escasso. As gravadoras(e nisso eu incluo tb as distribuidoras tradicionais) perderam a chance de abraçar estes novos artistas, ou abraçaram tardiamente quando os managers e as estruturas que suportam o artista chegaram com cifrões grandes para exigir grandes valores das mesmas. As gravadoras(e isto inclui as independentes), não tem velocidade suficiente para serem mais ágeis que o hype, o artista da internet de hoje, já está ultrapassado na semana que vem, o que dizer de 6 meses ou um ano depois quando o disco for lançado no maldito formato físico?

Ao mesmo tempo, a estrutura para vendas on-line ainda não esta totalmente implementada. Pergunte para alguém sobre o tamanho da fila para entrar no Itunes? Existem agregadores que podem fazer este trabalho para você, mas aonde está o fim das barreiras que a internet prometia tanto? Vamos trocar as gravadoras físicas pelos agregadores? Ou seja, toda a utopia de um mundo sem muitas barreiras é exatamente isto: um sonho?

A verdade é só uma: ninguém sabe o que vai acontecer. O declínio das vendas de CDs cavou um buraco na planice da indústria fonográfica, quando a internet se consolidou nesta indústria, foi cavado mais um buraco, no exato momento que a coisa parecia ter ficada OK graças as novíssima forma de divulgação; com a falha das grandes em capitalizar com as vendas digitais, mais um escavação foi realizada e hoje em dia vivemos em uma trincheira, e o pior não sabemos para qual lado atirar.