Seção “Você sabia?”: a idéia de gravar música em fita magnética é de 1928, sendo que a idéia de usar uma fita para arquivar dados (áudio no caso), vem do longínquo ano de 1898!!!
Em 1963 a proposta de popularizar a gravação em fita magnética ganhou um passo importante quando a Phillips criou o cassette. Sem público definido, sua criação, poderia ser comparada ao DAT, que surgiria mais tarde. Seria algo como o meio termo entre a tecnologia aplicada em estúdios e o uso caseiro.
Nos anos seguintes, ou sendo um pouco mais específico, no começo dos anos 70, o cassette passou a fazer parte dos aparelhos hi-fi, tornando a experiência de copiar um disco ou criar um playlist mais simples para as famílias abastadas. Paralelo a isso, o 8 Track tentava entrar – em parte – na mesma fatia de mercado (hi-fi/automobilístico), mas uma combinação de falta de sorte e o fato de que este formato não permitia a gravação/regravação caseira tornou o 8 Track obsoleto assim que o cassette ganhou as massas, baixando o seu inicial preço proibitivo.
Nos anos 70, o cassette tomou conta dos carros e aos poucos entrava cada vez mais dentro de casa. No começo dos anos 80, a Sony chegou com o Walkman, mudando completamente a experiência de se escutar música.
Um livro sobre o impacto do cassette na música pop poderia ser escrito facilmente. Dá para imaginar o rap sem os ghetto blasters? A revolução do pós-punk sem os selos de K7? Ou mesmo os longos e disputados mixes de Shep Pettibone atravessando o outro lado do atlântico ensinando para gerações futuras o que era a música eletrônica?
Enquanto que no mundo todo o K7 foi levado a sério, no Brasil, quando este formato começou a se tornar realidade, as gravadoras não levaram o mesmo a sério. Montados em vendas significativas de vinil, o formato K7 não era atraente. Ao poucos as gravadoras perceberam que sim, o K7 era um formato, mas de segunda classe. Mesmo lançando trabalhos também neste formato, ficou claro que para as redes de lojas que sustentavam o mercado fonográfico brasileiro não havia interesse em investir neste modelo.
Na estrada, a história era outra. Caminhoneiros e viajantes aderiram ao K7 imediatamente, era questão de tempo para que os postos de combustível se tornassem o principal ponto de venda deste formato. Contudo, não existiam títulos suficientes para suprir a necessidade do público. Em pouco tempo o estado do Paraná, graças a sua disposição geográfica entre o rico estado de São Paulo e Rio de Janeiro e com uma divisa com o país que proporcionava um livre fluxo de matéria-prima contrabandeada (Paraguai), criou um parque industrial dedicado à pirataria de cassettes.
Com o descaso das gravadoras e por isso, aliado ao descaso da polícia, a pirataria de cassettes fluiu livremente por sólidos 25/30 anos em território brasileiro. Em muitos casos, alguns K7s saiam antes dos lançamentos oficiais, graças a vazamentos de fitas masters em estúdios e fábricas de vinil.
Como no Brasil o Walkman nunca decolou – lembre-se que ainda vivíamos na era da economia fechada – este panorama descrito foi corrente até o começo dos anos 90. Quando o CD tornou-se o formato preponderante, a indústria viveu os anos mais prósperos desde sua criação, com consumidores trocando coleções completas pelas versões digitais. Nesta época, mais do que nunca, a indústria simplesmente relegou o cassette.
Com o advento do plano real em 1994, a situação econômica brasileira foi alterada, principalmente a situação de consumo. Aliado ao aumento significativo das importações(agora liberadas), os consumidores de todos os padrões passaram a comprar aparelhos de CD e a consumir títulos no formato digital. Os quatro anos seguintes do Plano Real foram anos em que a indústria deu um salto inesperado. As vendas de um milhão passaram a fazer parte da vida das gravadoras, que investiam pesadamente em gêneros populares como axé e sertanejo.
Se os 4 anos foram de glória, quando o Plano Real entrou em decadência em 1998, a reviravolta foi simplesmente brutal. O mercado aquecido com novos compradores tinha crescido, as maneiras de divulgação tinham atingido o seu ápice com a institucionalização do jabá, mas o povo não tinha mais dinheiro para comprar CDs. As músicas bombavam nas rádios e tvs, mas quem iria se preocupar com um pedaço de plástico quando conseguir pagar todsa as contas ao fim do mês era uma dúvida?
Foi então que a rede de pirataria do K7, que sempre foi ignorada pelas gravadoras e autoridades, foi acionada. Como quem liga um interruptor de luz, da noite para o dia a diversão para o povo foi democratizada. Algumas diferenças devem ser notadas:
- Enquanto o K7 e o Vinil possuíam qualidades claramente diferentes, o CD pirata não tinha a menor diferença (em áudio) em relação a um CD normal;
- Enquanto as cópias em K7 requisitavam instalações industriais para dar conta da demanda, o desempregado em casa poderia começar sua fábrica de CDs com 500 dólares;
- Os gravadores de CD tornaram-se tão simples e baratos que qualquer um tinha acesso a eles;
Em pouco tempo, o CD pirata foi tomando conta do espaço. Primeiro nas classes baixas, que simplesmente pararam de consumir CDs oficiais, e depois na classe média, que viu no CD pirata uma alternativa para economizar com o supérfluo. A esta altura do campeonato, a rede de distribuição estava tão bem sedimentada, que uma ação oficial era um sonho impossível.
De 2001 até 2007, foram 6 anos em que, mês a mês, a indústria foi perdendo uma guerra cujo objeto era o formato CD. Especialmente na virada de 2002 para 2003, com o advento da internet de banda larga, e a facilidade de encontrar arquivos MP3 na rede, a classe média aderiu ao sofisticado mundo da pirataria digital, que por sua vez evitava, de acordo com seu ponto de vista, a ingrata tarefa de trocar palavras com um camelô. No exato ano de 2006, foi o ano em que a falência das gravadoras brasileiras como nós conhecemos foi declarada.
Simples é afirmar que, sim, o descaso com a pirataria dos K7s foi a base para que 30 anos depois a pirataria de CDs tomasse conta do mercado. Ao contrário de outros países, a indústria fonográfica brasileira simplesmente ignorou a pirataria, quando deveria ter agido da mesma maneira que a indústria do cinema agiu quando implementou duras medidas para conter a pirataria das fitas VHS. Enquanto uma indústria soube fazer uso de uma política de tolerância zero desde o início, a outra preferiu continuar lucrando com o certo, nunca se preocupando com o futuro.
Da mesma maneira a indústria ignorou o nascente rock independente do final dos anos 90, continuando investindo pesado nos artistas populares, sem se preocupar que sim, em algum momento, o formato físico seria relegado aos nichos de mercado, que os sustentam até hoje. O fato da Sony-BMG passar a agir como agente de concertos, prova por A + B que os contratos de 360 graus visam garantir o último bastião da indústria da música, que são os shows. Há 10 anos atrás, isso seria um grande insulto, dizer que as gravadoras cuidariam também dos shows dos artistas.
Juntando tudo isso, fica fácil de entender um dos motivos do tiro no pé que a indústria fonográfica brasileira disparou.