Para quem não sabe como funciona, qualquer TV passa um clip que é pago pela banda/gravadora. Depois de um gasto que pode variar de 100 reais até 1 milhão, com a fita em mãos, ela é entregue para as TVs que passam clips, que depois de certa deliberação, decidem se vão colocar o video no ar ou não.
Simples. Este é o sistema que funciona desde que as TVs passaram a se interessar por música, mas obviamente, depois do advento da MTV, isso se tornou a prática e criou uma indústria paralela, ou melhor uma indústria conectada a indústria que tem como ápice os prêmios da MTV/Multishow.
O ponto é: por ANOS, as gravadoras e artistas entenderam que era necessário gastar uma pequena fortuna para ENTREGAR algo que ajudasse na promoção do artista. Qual é a diferença entre fazer um vídeo e gravar um disco, para simplesmente tornar o disco disponível gratuitamente . É exatamente isso que acontece! Ou que deveira acontecer. Não existe a menor possibilidade de um artista hoje em dia viver somente da venda de discos. Que discos? Aonde você vai vender discos? Em quais lojas? Qual é o seu público? Qual o preço do seu disco? Quantas cópias você precisa vender para recuperar seu investimento? Quem cuida da sua distribuição? Você tem um contrato para vendas on-line?
A maioria das pessoas que estão lendo este texto, são artistas independentes. Ou seja, a maioria destas perguntas devem fazer parte do dia a dia de uma banda do cenário independente. Ao contrário de tanta reclamação de que o mundo acabou e que discos não vendem, a pergunta é: você tem público? Qual é o seu público?
Não existem dados certos para sustentar o que eu vou dizer… mas basicamente: se você faz música para adultos, você ainda pode vender CDs, a minha intuição diz que a venda de CDs está diretamente ligada ao número de shows que você realiza e a cobertura da imprensa tradicional. O seu jogo é limitado, mas em teoria você pode vender algo como 10.000 CDs e realizar um bom número de shows. 10.000 CDs vendidos a 10 reais, em teoria significa um lucro de algo como 50.000 reais, se sua banda “adulta” tem 4 integrantes, estamos falando de um excelente décimo terceiro sálario de 12.000 reais.
Se a sua música é para não adultos, a realidade é outra. Você possivelmente não vai conseguir vender 10.000 CDs, você possivelmente consegue fazer muitos shows, mas eles não pagam tão bem assim, mas mesmo assim você faz shows. Até um tempo atrás sua vida se resumiria a isso. Contudo a fatia mais importante dos recebimentos da indústria atual, seria ignorada : tudo o que não é disco e show. Quantas bandas fazem camisetas para vender em shows? Quase nenhuma… existe alguém explorando este mercado? Praticamente ninguém. Basicamente as empresas que poderiam se tornar em poucos anos, líderes absolutos neste negócio, preferem fazer camisetas piratas de artistas internacionais consagrados. Alguma destas empresas já ligou para o empresário do Vanguart e ofereceu o serviço de fazer as camisetas da banda e pagar um royalty para eles? Duvido. Quantas bandas deste tamanho existem hoje em dia? Milhares. Eles com muita sorte, vendem 4000 discos. E qual o tamanho das comunidades no orkut e o número de acessos no myspace? É grande. Estas pessoas não compram discos, elas baixam o disco e sem o menor pudor. Aliás falar em disco é algo que não tem sentido para a nova geração, não existe o pensamento de formato. Mas ainda existe um elemento social da música. Isto nunca deixará de existir. As pessoas que antes levevam um disco para a faculdade para mostrar que pertenciam a um grupo social, não podem fazer isso com um arquivo digital. Mas podem fazer isso com uma camiseta, com um pin… mas a pergunta é: alguém esta fazendo isso? Ou todo mundo só está reclamando?
O grande erro dos independentes é tentar replicar modelos das majors. Erro fatal. O primeiro grande erro que um artista independente pode realizar é perder o contato com os fãs. Erro fatal. Contratar alguém para cuidar do myspace, para responder e-mails dos fãs. Desencanar de saber o que está acontecendo é a receita para tudo dar errado. Por que as empresas sérias gastam fortunas com pesquisa? Um artista independente não precisa disso. A pesquisa está na sua cara, a sua vida artística hoje é uma grande pesquisa. É saber o que o seu público quer, não o que um executivo acha que o público precisa. A indústria musical majoritaria sempre foi a opinião de poucos(diretor artístico, presidente da gravadora, diretor de marketing/promoção) versus o público. É só parar e pensar em tantas bandas horríveis tivemos que aguentar por alguns meses nas rádios ou tvs e que nunca deram certo? Motivo: não existia lastro. Hoje em dia é exatamente o contrário. Se a Ana Canas está na Sony é porque sim, ela tinha um fanbase criado por suas apresentações no Barretto. Se o A&R da EMI viaja do Rio para SP para ver o show da Mallu Magalhães, é porque ele sabe que aquelas 100.000 pessoas que entraram no myspace dela, podem consumir algo. Obviamente os números mudaram, uma major sofre para vender 20.000 cópias de um disco, principalmente de um artista novo, mas a única maneira de tentar chegar neste número é se uma banda possui um fanbase.
Mas se as majors sabem disso, os independentes se esqueceram que é necessário não somente ter um fanbase, mas tratar os fãs muito bem. Os Los Hermanos sabiam disso, por isso seus shows sempre lotaram e seus discos venderam muito bem. Poucos se lembram e falam da iniciativa de vender assinatura no site deles para os fãs terem acesso a material exclusivo. Simples e perfeito. É assim que funciona hoje em dia.
Uma banda precisa cuidar dos fãs e oferecer algo especial, que torne singular a experiência da música. E isso não se resume mais a prensar um CD e fazer shows. É muito mais do que isso. Enquanto esta equação não estiver resolvida, não existe saída.